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Há dois anos, numa viagem a São Paulo, visitei um sebo onde encontrei um livro que já tinha comprado e lido na época da Universidade: Xogum. Na verdade, o livro fazia parte do material didático de História do Oriente, assim como uma minissérie baseada nele (fiel, na verdade). Assistimos ao filme e lemos o livro para aprender sobre o Japão Feudal, e foi realmente muito eficiente justamente pela imensa quantidade de informação sobre aquele país e sua história. Pode-se encontrar o romance dividido em dois tomos, porém este que adquiri é a edição de volume único. Digamos que era um peso a ser considerado o acréscimo a bagagem, já que o volume tem 840 páginas e pesa cerca de 1kg. Fazia um tempinho já que estava querendo relê-lo, então não hesitei, comprei.

Escrito em 1975, por James Clavell, o romance se passa por volta do ano de 1600. Conta a história do capitão inglês e piloto do navio holandês Erasmus, John Blacthorne, que naufraga na costa japonesa ao seguir um portulano – antiga carta náutica – contrabandeado, que indicava as rotas seguidas pelos jesuítas no oriente. Ele e uns poucos sobreviventes são levados como prisioneiros, iniciando uma relação recheada de choques culturais, intrigas e disputas.

O Japão estava dividido pela disputa da posição de Xogum, a mais elevada autoridade militar do país. Samurais querendo ganhar favores com seus senhores feudais, outros traindo estes mesmos senhores em busca de poder. Neste confuso cenário político, temos ainda as questões religiosas, já que Blackthorne, sendo protestante, entra em conflito com os Jesuítas, seguidores do catolicismo e “donos” do mercado naval no oriente, mostrando a guerra econômica travada por estas duas religiões. Durante todo o livro, as religiões duelam pelo poder de influência no Japão, por meio do capitão e dos padres jesuítas, tentando garantir o ouro gerado pelo comércio na área. O livro deixa bem claro que a luta pelas “almas” está num plano secundário.

Anjin-san, que significa Piloto, passou a ser o nome pelo qual os japoneses tratavam Blackthorne – impronunciável para eles. Considerados bárbaros pelos japoneses, os ingleses sofreram humilhações e tortura, até que o piloto resolve aprender um pouco sobre este povo estranho e tentar negociar com eles. Sua trajetória para alcançar este objetivo é a base do livro, entre servir de joguete para adversários políticos e aprender hábitos totalmente novos, Anjin-san vai conquistando seu espaço nas ilhas japonesas.

O primeiro grande obstáculo que encontra é a língua, totalmente incompreensível para os ingleses. Inicialmente, é um padre que traduz as conversas entre os ingleses e japoneses, porém com a chegada do senhor feudal Toronaga, Mariko, uma recém convertida ao cristianismo (por isto aprendeu a língua dos jesuítas), mas que como samurai deve lealdade a Toranaga, passa a ser a tradutora. A mudança de tradutor acontece pois seu senhor percebe a extrema rivalidade entre o jesuíta e o capitão e teme que o primeiro não cumpra fielmente seu dever de traduzir.

Aos poucos estes personagens vão se conhecendo e suas diferenças culturais se tornam gritantes. Blackthorne percebe a sabedoria deste povo, sua frugalidade, seus hábitos de limpeza (inicialmente, firmemente repelidos por ele) e suas estranhas e às vezes chocantes tradições.

Para nós, leitores, é descortinado um mundo novo. Apesar da cultura japonesa estar amplamente difundida no mundo atual, nós não a conhecemos além da superficialidade. Podemos comer sushi, usar quimono e ter um ofurô em casa, porém não sabemos de suas nuances, das regras que ditam como amarrar corretamente um quimono ou de preparar e comer o sushi. Enfim, não vemos além da superfície apresentada.

É um livro interessante, porque também aprendemos um pouco mais sobre a vida na idade média na Europa. Acho que serve para tirar as lentes cor de rosa de quem acha “lindo” a vida naquela época, onde os hábitos de higiene eram inexistentes, as casas eram insalubres e a comida era devorada com as mãos sem nenhuma cortesia. Não é de admirar que Anjin-san se chocasse com a freqüência de banhos dos japoneses, com sua delicadeza a mesa, suas casas imaculadas e sua cortesia com os demais. Eram totalmente opostos.

Outro ponto alto é como o autor nos mostra as diferenças dos jogos políticos entre os dois povos. Os ingleses são diretos e conflituosos, já os japoneses são estratégicos, cheios de artimanhas e jogos. Do início ao final do livro é desenvolvida toda uma estratégia para chegar ao poder, às vezes incompreensível para nós, já que vamos recebendo partes separadas de um todo. Fiquei fascinada por este xadrez político concebido pelo autor.

Mas não são apenas disputas políticas e religiosas que recheiam estas páginas, há romance também – eu gosto disto, afinal. Blackthorne e Mariko vão se envolvendo, porém ela é casada com um poderoso samurai e este envolvimento se torna muito perigoso para ambos. É interessante ver como se dá o envolvimento entre estes dois personagens tão distintos, e as nuances que o amor tem no Japão descrito por Clavell. O temperamento do povo japonês é uma surpresa para o navegante, pois são dóceis e pacientes, porém quando precisam são hábeis e certeiros com a espada. Guerreiros implacáveis e impiedosos, mas doces e cultos. Esta dualidade é intrigante para ele e para mim, confesso.

Enfim, considero um dos melhores livros que já li, tanto pelo estilo do autor que torna a leitura fácil e rápida a ponto de esquecermos a espessura do volume, quanto pela ambientação histórica perfeita que ele nos traz. Expõe a falta de educação e de bons hábitos de higiene do povo ocidental, bem como as intricadas tramas políticas tecidas pelos japoneses. Um fato que considero bem interessante é de como o feudalismo funcionava de forma assemelhada em duas nações tão distantes fisicamente uma da outra, que sequer sabiam da existência da rival, porém a fidelidade ao senhor feudal (daimo) no Japão me parece muito mais extremista e rígida que no ocidente.

Leitura mais que recomendada, quase obrigatória.