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Sérgio da Costa Ramos (Florianópolis, 1947)

Depois de amargar as manchetes de uma semana inteira toda aquela desgraceira que respinga de Brasília ganhamos um sábado e um domingo de pôr-do-sol de folhinha.

Ainda bem. Respirei fundo. Tenho um nariz pequeno e por isso estiquei-o ao máximo, como o bico dos beija-flores, querendo me consolar com os polens que levitavam na manhã de sol.

Olhei o morro da Lagoa, ostensório erguido pela natureza para guardar a Conceição e suas dunas. Na baía sul, contemplei o Cambirela, Himalaia da Serra do Mar, seio empinado que dispensa recheios e espartilhos.

É isso que me consola. Olhar ao redor as intimidades da minha terra e sentir o conforto dessa paz e desse patrimônio visual, que ninguém nos tira. À medida que o tempo avança, a recordação do berço acende nos viventes aquela indestrutível cumplicidade com a sua “querência”, o seu recanto, o seu chinelo, o seu pijama. É comum pedirem os homens, antes de morrer, que trasladem seus ossos para o lugar onde viveram a infância, onde sentiram pela primeira vez o aroma das flores, onde aspiraram o oxigênio da mãe e sugaram a via láctea da primeira refeição.

E de onde vinha esse fortificante? Dos seios. Por isso prefiro os seios, como os americanos. Claro, como bom brasileiro, não economizo o olhar a um bumbum bem calibrado, aqueles dois hemisférios femininos, ao mesmo tempo curvilíneos e voluptuosos.

Minha terra – e não falo só da Ilha, mas de toda Santa Catarina – do litoral ondulado ao Peperi-Guaçu argentino, é uma sucessão de seios. Razão tinha o governador-escritor, Jorge Lacerda, ao pincelar seu Estado, em texto memorável:

– A natureza, aqui, parece ter convocado as montanhas numa verdadeira insurreição telúrica, para conter a marcha do homem. O chão catarinense foi sacudido por uma convulsão de serras. Para dominá-lo, foi mister a obstinação heróica daquelas raças que trouxeram do Velho Continente a decisão de luta e a paixão da conquista.

O Estado é um triângulo deitado, o vértice no Peperi-Guaçu, lá na fronteira gringa, e a base no Atlântico, em cuja mesa o Criador serviu um “espumante” de raro sabor e pura beleza: 531 quilômetros de praias.

Santa Catarina – assim como a Ilha – é uma beldade deitada. As pernas ficam no Oeste, o umbigo no Vale do Rio do Peixe. E os seios se empinam na Serra do Mar, com seus bicos intumescidos emergindo da renda azul dessas manhãs de julho.

Ainda bem que eles, os seios verdes da terra Catarina, ainda nos cercam de calor e de afeto, e nos consolam e protegem da sensaboria dos últimos acontecimentos – ao abrigo desses dias de cristal, no sutiã das manhãs…