Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Hoje damos inicio a uma nova sessão do blog: Espaço dos Amigos (juro que pensarei num nome melhor num outro momento). O nome é auto-explicativo, mas posso completar dizendo que será um espaço aberto, sem linha editorial ou similar, onde nossos amigos se expressarão, colaborando e enriquecendo o blog. Inauguramos o Espaço com um grande (literalmente) e querido amigo: Zander Pazini, mais conhecido como Zed, que fez charminho e acabou nos presenteando com um excelente texto,  que esperamos seja o primeiro de muito. Com voces… Zander Pazini!

Expectativas

Quando fui convidado a escrever para esse blog, aceitei imediatamente. Minha resposta, aliás, foi um enigmático “Me dê alguns dias” (eu sempre quis fazer algo desse tipo!). O meu problema: eu não sabia sobre o que escrever. Ainda não sei. Enquanto digito, vou improvisando. A questão é que eu não sou bom contista. Muito menos um cronista razoável – ao contrário de um amigo meu, que com certeza deve escrever para esse blog e que, se dependesse de mim, escreveria crônicas todos os dias (mas aí eu lembro do manifesto “The writer is not you bitch” do Gaiman – que, se você ainda não leu, deveria – e decido deixar ele em paz), mas eu divago.
Nessa de pensar sobre o que escrever, considerei falar de muitas coisas. Do ano que entra, do ano que se passou, dos meus gostos pessoais como quadrinhos, filmes, livros ou games… Mas sempre parece faltar algo. De repente, eu tive uma idéia: falar sobre expectativas. Do que vem por aí, de tudo o que se espera nesse ano novo, de todas as promessas que vem por aí… Mas como falar sobre isso sem parecer pedante, ou ainda, sem fazer com que o texto soe datado demais…?

Expectativa. A palavra já é carregada de significado. Peguemos, por exemplo, Star Wars Episódio III A Vingança dos Sith: não necessariamente o filme favorito dos fãs, mas com certeza o mais carregado. À época, a sensação de fim era palpável. E como é incrível se sentir parte de algo que está terminando: estar entre os primeiros que vêem a coisa sendo terminada, vendo toda uma história se completando, tendo a sensação de que vai poder um dia falar “Eu estive lá”… Vez ou outra me pego pensando nisso… Em como era estar lá da primeira vez: no primeiro Guerra nas Estrelas… Em uma das primeiras sessões de O Poderoso Chefão… Ouvir pela primeira vez Black Sabbath, sem carga nenhuma, sem sensação nenhuma, sem saber de nada ou ter ouvido qualquer coisa antes ou depois que pudesse soar ou parecer igual.

Hoje em dia tudo é cercado de expectativa. Mesmo quando você ouve um disco clássico, gera uma expectativa: afinal, porque esse disco é bom? Porque ele é clássico? Costumo dizer que Led Zeppelin, por exemplo, foi um gosto adquirido: tive que aprender a ouvir para gostar. Ao passo que da primeira vez que ouvi Queen eu já gostei de imediato. Talvez (e esse é um enorme talvez, talvez o maior talvez de toda a minha vida de talvezes – essa palavra existe?) eu tenha gerado uma expectativa quando fui ouvir Led pela primeira vez (e isso é verdade) e aí eu criei uma expectativa de que eu REALMENTE tinha que gostar daquilo, somente por ser clássico. Mas não gostei. Fui gostar anos mais tarde, depois de ouvir muita música.

Expectativa. Essa palavra pode matar o gosto de uma pessoa logo de cara. Imagina alguém lendo Watchmen depois de todo esse tempo, com filme e reedições a toda hora e todas as informações à solta pela Internet? Vai pegar esperando uma obra prima sem igual (o que vai receber, diga-se de passagem). Mas… E se não for o que a pessoa espera? E se a expectativa for diferente da realidade? Talvez tenha sido isso que tenha acontecido comigo e o Led… Tenha surgido uma expectativa irreal, uma idéia de que aquilo tinha que ser de uma certa forma e não foi. E, se a pessoa pegar Watchmen para ler esperando uma história tradicional de super-heróis, rapaz, vai ficar decepcionado…

A questão maior é que hoje em dia todos adoram criar expectativas. Talvez a indústria mais craque em fazer isso hoje em dia seja a de games: eles divulgam tantas informações e geram um “hype” tão enorme que as pessoas pegam seus jogos esperando que sejam ótimos, todos eles novos clássicos. E não é bem assim. Provavelmente nunca será. O problema é que se você gera uma expectativa por algo, tem que cumprir, se não… Bom, Duke Nukem Forever tá aí para provar o que acontece quando você não pode cumprir suas promessas. Agora, imagine como deve ter sido jogar o primeiro Super Mario Bros… Ou ainda o Donkey Kong original ou mesmo Pong ou Pac-Man, sem saber de nada, sem saber o que esperar ou que pudesse vir a seguir no jogo. As pessoas são tão ansiosas por novas informações que não conseguem segurar a própria onda, serem surpreendidas por algo novo e diferente. Eu me lembro quando joguei Sonic pela primeira vez: a sensação de velocidade incrível, a liberdade de correr pelo cenário a mil por hora, as cores vibrantes, a música… Tudo era diferente, novo. E isso tudo foi descoberto por mim mesmo sem ter lido ou visto nada antes, assim como muitos da minha geração fizeram, algo quase impossível hoje em dia.

Talvez, nessa questão de gerar expectativa, os mais felizes sejam os fãs de Harry Potter, que não precisam mais esperar por um novo livro ou novas informações sobre o futuro dos seus personagens favoritos. Isso também é um pouco triste admito, mas também é bom, de certa forma, saber que a história que você acompanhou por tanto tempo teve um desfecho. Nesse sentido, sinto pena dos fãs de Guerra dos Tronos, pois nós temos que esperar, em agonia, pelos próximos livros como uma criança que aguarda a deliciosa sobremesa depois de um almoço. É como se fossemos fãs de Harry Potter uma vez mais, com aquele mesmo sentimento no coração…

Expectativa.

É, para quem não sabia sobre o que escrever, até que eu escrevi bastante. Sobre games, filmes, livros, quadrinhos… E, para quem não queria escrever sobre o que gostava, acabei escrevendo exatamente sobre isso. E, uma vez mais, vamos nós, para um ano de novas expectativas.

Zander Pazini (que espera que esse seja um ótimo ano para todos).