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De Agostinho Neto (Angola, 1922-1979)

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

 

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar
 
ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

 

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

 

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

 

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

 

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

 

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

 

E nas senzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

 

O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.